Aqui, ali e lá
- Deborah Klabin

- 4 de mar. de 2024
- 1 min de leitura
(fevereiro, 2017)
Teve um momento preciso no qual você estava passando por ali, bem ali, e eu então passei por esse mesmo ali, ao mesmo tempo. Por acaso.
Por convergências de alis, virando dois aquis num mesmo metro quadrado.
Por sobreposições de passos.
Por sincronia de relógios.
Calhou.
Coincidiu.
Podia ter sido diferente, mas foi como se deu.
Feito bater de testa num muro quando se anda distraída.
Inclinei a cabeça pra cima para parar de encarar seu tórax. De tão perto que você estava e de tão alto que você é, seu coração batia na altura do meu ouvido. Eu consegui ouvir. Consegui ouvir que seu coração nem ligou pra nada daquilo, assim como o coração de um leão não muda quando vê um coelho.
Você poderia ter me engolido de uma só vez, sem deixar vestígios.
E ali, bem naquele ali, você, que sempre parece forte e mau, foi aos poucos ficando frágil e manso quando falei "deixa eu limpar seu rosto", porque alguma coisa preta riscou sua bochecha.
E ali, por pelo menos alguns minutos, todos os nossos conflitos pareciam equacionados.
Sua bochecha já foi o palco de lágrimas que eu bem sei, mas gosto muito mais quando sua cara apresenta espetáculos de sorrisos. Parece o Maraca num Fla Flu lotado no domingo, mesmo que nem eu e nem você gostemos de futebol.
Descobri que você, tão cara amarrada, tão pinta de mar em tormenta, tão soco inglês nos dedos, tão whisky puro, era na verdade tão sorriso tímido, tão barquinho de papel, tão cafuné vendo filme, tão chá de hortelã.
Que piada.
Que fraude.
Que amor.


















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