Ilusão demais. Realidade de menos.
- Deborah Klabin

- 4 de mar. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mai. de 2025
Há alguns anos, muitos “amigos” ficaram revoltados quando terminei um namoro. (tenhamos em mente que "colega de Instagram" não é amigo, ok?Mesmo que seja possível ter amizades muito especiais usando esse espaço para romper as barreiras de tempo e espaço m)
Queriam saber o porquê de um casal tão "fofinho" ter se dissolvido assim, “do nada!”.
No começo tentei explicar pra quem vinha surpreso tentar entender "o que houve?". Falava superficialmente as minhas razões, sem ser ríspida buscava o entendimento de que às vezes o amor -que pode ser que nem fosse amor mesmo- acaba por falta de afinidades etc, mas depois de certo tempo, entendi que minhas palavras não faziam a menor diferença pra ninguém.
Sabe por que?
Porque o mundo virtual se fantasia de mundo real. E estamos gradualmente perdendo esse discernimento: só vá a restaurantes "instagramáveis". Só faça passeios que rendam boas fotos. Só saia de casa para poder publicar seu caminho.
No atual limbo existencial das redes sociais, somos todos personagens irreais (apesar da essência disso tudo ser feita de nós próprios).
Por exemplo, essa situação que vivi: mesmo que postasse poucas fotos, as pessoas gostavam de amar -ou odiar- o que viam ali. Gostavam da suposta harmonia, do exemplo com esportes e famílias. Gostavam da ideia de participar da nossa história.
Antes de mais nada: sim, um dia até existiu afeto. Mas também existiram problemas, como em todo relacionamento. Só que eles passaram a ser insuperáveis.
Criações diferentes, prioridades diferentes. Sonhos diferentes e algumas outras coisas. Era claro que ia acabar (diferente de relacionamentos que acabam de forma súbita, por traição ou qualquer outra ocorrência grave).
Isso faz parte da vida.
Que fique claro: sou um dos seres mais crentes do sublime sentimento que é o amor. Mas, aos poucos, aprendi que fotos de momentos e pessoas especiais nem sempre devem ser exibidas, e isso por uma única razão: quem vê essas frações de vida, jamais vai entender o real sentimento existente ali. Os laços, ritmos e cotidiano exibidos com linearidade, alegria, calma e esterilidade.
Para uma prima desse ex, tentei falar quais tinham sido os problemas que ocasionaram o fim. No meio da conversa, porém, percebi que para ela pouco importava. O que a chateou de verdade foi o porquê de, nas fotos parecíamos felizes, quando na verdade não estávamos.
Decidi, então, não explicar mais nada. Nem pra ela e nem pra ninguém.
Pra minha terapeuta? Sim. E pra mais ninguém.
Nem sempre são erros ou defeitos, nossos ou do outro, que fazem um relacionamento acabar. Quem já se relacionou com alguém, sabe que a capa do livro raramente revela seu conteúdo.
Cada vez mais quero “des”-conhecer pessoas. Como se pudesse passar uma borracha e deixar de ter conhecimento de bastante gente que acredita piamente que o Instagram é uma novela a ser seguida.
Acho o aplicativo legal até, porque é mais fácil falar por lá do que pelo WhatsApp.
E gosto também de ver como estão minhas amigas e seus filhos crescendo.
Além disso, gosto dos vídeos de cachorros e outros animais, de bebês fofos, de pianistas, de arquitetos, de Lego, de receitas de comidas que nunca vou fazer, de ginástica olímpica, de músicas boas e de indicações de livros e filmes. Ah, e os de humor, que volta e meia fazem as esperas em filas ficarem engraçadas.
E é só isso mesmo.
O resto eu realmente nem sei porque aparece no scroll.
Entenderam o quanto estamos nos nutrindo de um enorme nada? Esse aparato tecnológico agiliza sim a comunicação, mas nada além disso.
Ser “amigo de Instagram” não é título válido de qualquer relação. Um café, uma tarde na praia, uma ligação de telefone, um almoço com espaço para atualizar o andar da vida de cada um... Isso sim são momentos verdadeiros, mas um “like” não significa nada além de que a pessoa gostou da sua foto.
As frases engraçadas e lugares bonitos são ótimos. Mas não tomem isso como informações que te dizem algo à respeito de seja lá quem for. O Instagram está cheio de parentes ausentes, momentos vazios, encontros desagradáveis com paisagens bonitas e mais infinitas ambiguidades.
Apreciar o silêncio real e digital me parece mais precioso a cada dia.
Let's unfollow what's fake?


















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